Dr. Frankenstein

Dr. Frankenstein é o nono espectáculo da Noitarder e estará em cena a 24, 25, 28, 29 e 30 de Julho, às 19:00, na Unidade de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Hospital de São João).

reservas.noitarder@gmail.com


Mary Shelley, no prefácio à segunda edição de Frankenstein – The modern prometheus, chama à obra “my hideous progeny”: “minha descendência medonha”. Fala também acerca de algumas experiências científicas que serviram de inspiração na criação do romance: Erasmus Darwin, cuja investigação se focava na geração espontânea de vida, e Luigi Galvani, fundador do que viria a chamar-se de “galvanismo”, que investigava formas de fazer reviver cadáveres de sapos através de estímulos eléctricos, criando o conceito de “electricidade animal”.

Um mundo que não existia — que o romance fez existir — nasce da distância que a investigação cria entre a medicina medieval, ainda mágica, e a medicina científica. Do erro da ciência surge a possibilidade da ficção científica. Da mesma forma, no romance, a técnica e a ciência dão origem ao erro: um “monstro”. A medicina científica permitiu ao humano um novo olhar sobre si próprio, quase ver-se de fora — diz-se, muitas vezes, que o sujeito se transforma em objecto. A literatura e, neste caso, a escrita de Mary Shelley, também criou um olhar eloquente, mas não humano, que permitiu ver a humanidade “de fora”, do lugar de quem observa. O erro olha-nos de volta. Ambos os processos criam uma distância para olhar, para perceber, para observar o mundo. E esta distância é criadora, ela própria, de mundos possíveis infinitos.

O monstro e o criador confundem-se, hoje. Quem era mesmo o Frankenstein?

Na pesquisa que fiz

— Lá aparece um “eu”, no meio do caminho: o monstro e o médico a confundirem-se, ao escrever esta sinopse. Volto: —

Na pesquisa que fiz acerca de cemitérios em DESCANSAR (2023), dei com um texto que atravessa a evolução da humanidade como se fosse um só dia. Na dissertação inaugural da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Cemitérios, Manuel Pereira da Cruz imagina um tempo que não existe, um ponto-de-vista impossível; imagina como pensam, o que sentem, o que vêem os hominídeos enquanto vão evoluindo. Para fazer ciência, MPC começa na literatura. Para criar as imagens mentais que permitiram chegar à ciência, não partimos, de alguma forma, do pensamento artístico?

E as terapêuticas, os caminhos pseudo-científicos que vão ficando para trás: que papel têm na cultura e na criação de imaginários possíveis? A teoria dos humores, as curas quase mágicas, a associação da tuberculose à melancolia, da lepra à depravação: de que forma a medicina também precisou de narrativas e histórias para conseguir pensar, evoluir, e deixar as histórias para trás?

Dr. Frankenstein pensa acerca da passagem da medicina pré-científica – e ainda mágica – à ciência, impulsionada sobretudo pelas descobertas do século XIX. O projecto explora o caminho entre as curas medievais e a experimentação científica, e pensa como, no intervalo entre umas outras, surgiu espaço para emergir um novo terreno de criação literária. Partimos de Frankenstein mas não ficaremos nele, para pensar acerca do cruzamento entre medicina, ciência, magia e literatura como lugar de concepção de novos mundos possíveis e de novos olhares, que critiquem os conceitos de vida, de humanidade, etc. Interessa-me, sobretudo, perceber de que forma é que a ficção trabalhou no sentido de procurar formas de pensamento distintas das humanas, usando esse espaço não só para se distanciar o suficiente para criticar o mundo actual, como para criar uma brecha de mundos possíveis a partir do tecido do real. 

Um pensamento invasivo: A medicina luta contra a morte? A criação artística luta contra a morte?

Outro pensamento invasivo: Porque é que eu escrevo? Eu, Raquel S., que escrevo esta sinopse à espera do relâmpago: o que quero tornar objecto? Como é que a distância técnica da criação artística – como a da medicina – permite que nos vejamos de fora, por fora e para fora?


direcção artística, texto e performance. Raquel S. 

apoio à criação e à interpretação. Maria Jorge

contribuição dramatúrgica. Nokas Maria

direcção plástica, figurino e apoio à criação. Joana Mont'Alverne 

modelação de figurinos. Delfina Oliveira

confecção de figurinos. Delfina Oliveira e Cristina Silva 

música e desenho de som. Rui Lima & Sérgio Martins

desenho de luz. Maria de Lurdes

apoio à luz. Renato Marinho

imagem e comunicação. Nuno Matos

direcção de produção. Belisa Branças

projecto apoiado pela República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto / Direção-Geral das Artes e pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

residência artística. Blocos Erráticos — Teatro Municipal da Covilhã

agradecimentos. Ana Carolina, António Alexandre Augusto Moreira, António Júlio, Cottonparadise, CRL – Central Elétrica, Dina Ferreira, Eduardo Brandão, Fátima Palmeiro – Museu de Dermatologia Dr. Luís Sá de Penella, Filipe Campinho, Francisca Costa, Francisco Apolónio, Inês Maia, Leandro, Lara Sousa, Lia Lucas Neto – Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, José Paulo Andrade – Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Mafalda Banquart, Marco Gabriel, Maria Inês Peixoto, Maria João Calisto, Mário Catita, Nokas Maria, Nuno Matos, Pedro Azevedo, Pensamento Avulso, Rafaela Ferraz, Rúben Mota, Rui Coelho, Sara Adães, Sara Oliveira, Sónia Faria – Museu do Centro Hospitalar Universitário do Porto, Teatro da Didascália, Teatro Experimental do Porto, Teatro da Palmilha Dentada, Tiago Margarido, Vera Santos, Vítor Sousa, Beatriz e Luís – Instituto de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; a todas as pessoas que responderam ao questionário acerca do exercício da medicina.

Queremos deixar um agradecimento muito especial à equipa da Unidade de Anatomia da FMUP, que todos os dias tem estado connosco e colaborado activa e simpaticamente para que o espectáculo venha a ser um monstro vivo, cheio de pessoas dentro.