Endless corda
Endless corda é o primeiro projecto da chancela “Livro de lugar”, das Edições Noitarder, e o livro será lançado no fim de 2026.
Em 2025 lançámos, com muita alegria, as EDIÇÕES NOITARDER. Para além das edições que resultam de espectáculos, começamos, em 2026, o projecto LIVRO DE LUGAR. Este projecto parte de residências artísticas longas, a partir da quais Raquel S. escreverá livros de ficção narrativa, resultantes da experiência do lugar. Em 2024, a dramaturga esteve uma semana na Mina de S. Domingos, a convite da Companhia Cepa Torta. Aí nasceu a ideia do que virá a ser o primeiro livro de lugar: Endless corda.
Endless corda procura viajar no tempo, partindo do presente, imaginando futuros possíveis e resgatando passados adormecidos em documentos, em histórias, nas ruínas que tocamos hoje feitas por trabalho de pessoas que já não existem, e de minérios de um tempo tão antigo que nem temos lembrança dele.
No complexo mineiro da Mina de S. Domingos, no cais do minério havia um dispositivo, um cabo ligado nas pontas que transportava minério para trás e para a frente: chamavam-lhe “corda sem fim”. “Endless rope”, nos documentos deixados para trás quando a mina fechou. Como numa corda sem fim, Endless corda procura puxar o fio do tempo e andar para a frente e para trás, saltando entre momentos passados, presentes e imagens de futuro, e também entre documentos, memórias e ficções emergentes da Mina de S. Domingos. Interessa-me, sobretudo, explorar a ideia de que um lugar não é apenas o que existiu e o que existe agora: de um lugar, nascem muitos mundos mentais, que se refazem a cada instante.
A minha residência na Mina permitiu-me perceber a sua complexidade e invulgaridade, e apenas intuir uma história profunda, que começa muito antes do agora, da venda do ferro, da saída dos ingleses, da deslocação da aldeia primitiva, da chegada dos ingleses, da empresa, antes ainda da exploração mineira romana. Há um tempo cujo nó parece estar na própria formação geológica, antes sequer de haver alguém para se lembrar dele. Endless corda procura viajar nesse fio de tempo. Há camadas de tempo que coexistem na Mina e que se tornam sensíveis: reparei, no cine-teatro, no antigo placard que anunciava os espectáculos, que deixa ver camadas de tempo que passaram, mas também um cartaz para um evento que ainda não aconteceu. No arquivo, encontrei desenhos técnicos com dedadas de mãos sujas de trabalho, guardados com gestos de hoje, com um clip, pelo cuidado das arquivistas. Ao passear na rua, quando me contavam histórias, eu via o tempo fantasma do passado, da romaria a levar a Santa Bárbara à boca da mina, dos operários a ir e vir da mina, das mulheres a bater a roupa ao sol. Ao olhar para a corta da mina vi um desenho fantasma, o negativo: o monte inicial, que agora é uma cratera cheia de águas ácidas. Há lá um carvalho morto que viu anos e anos, milhares de pessoas; que deixou passar o tempo lento das ruínas, até ser ele próprio uma ruína da paisagem. Imaginei o dia em que a Mina ficou às escuras, e ouvi as histórias dos geradores e dos petromax; pensei nos corpos deixados para trás no cemitérios dos ingleses – que estaria parado no tempo, se não fosse o trabalho contínuo e silencioso da ferrugem, das ervas, o continuar dos ciprestes.
No meu curto tempo no arquivo, encontrei relatórios de acidentes de trabalho, motins de trabalhadores, greves; uma carta-queixa da professora Casimira à polícia, farta de defender as meninas da escola e as andorinhas das fisgas dos rapazes. Li a notícia de uma carta que anunciava o fim do mundo para o dia de todos os santos de 1895; a lista de coisas roubadas da casa de um inglês; o relatório de uma burla muito elaborada, que envolvia um roubo de diamantes por correio. Encontrei um papel que respondia a uma pergunta que eu tinha feito nesse dia, mas que não me souberam responder – “Como é que se colava a película de filme?”; com acetona, respondeu um papelinho no arquivo, como se me ouvisse. Encontrei notas tiradas por alguém que aprendia português, e documentos com línguas misturadas: “keep all fichas”; “velho wagon and novo wagon”. Uma pessoa contou-me uma história e usou a palavra “break”, em vez de “travão”. Chamei, por isso, a este projecto Endless corda.
[Terei de aprender uma forma de guardar as cores, porque as fotografias não chegam: o laranja, o vermelho quase sangue, o roxo; o preto da escória e o branco dos montes de cinzas. A paisagem que vemos hoje demorou quanto tempo a ser feita?]
Quando voltei a casa descobri que o meu avô esteve na Mina de S. Domingos.
Raquel S.
Endless corda tem o apoio da República Portuguesa - Ministério da Juventude, Cultura e Desporto e da DG Artes.